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Bob Marley no Brasil

Bob Marley no Brasil

Planeta Reggae

setembro 1st, 2015

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Em 18 de março de 1980, quatro jamaicanos de dreads e uma loira com sotaque francês chamativo pararam para abastecer um jato particular no aeroporto de Manaus, por volta de 16h, carregando haxixe e maconha. Sob o sol forte da Amazônia, militares abordaram Bob Marley e a banda The Wailers, suspeitando das intenções enfumaçadas daquele pessoal que seguia para o Rio de Janeiro. Resultado: depois de muita conversa com os oficiais, o rei do reggae conseguiu ficar no Brasil para uma passagem de sete dias, mas teve o visto de trabalho negado pelos agentes do Departamento de Ordem Política e Social (Dops), minando qualquer chance de um show histórico de Bob Marley no país.

Mesmo sem subir ao palco, a primeira e única visita do rastaman às terras tupiniquins influenciou o som de importantes artistas brasileiros naquela época, como Moraes Moreira e Alceu Valença, além de levar o reggae ao gosto popular. Por isso, no exato dia em que Bob Marley completaria 70 anos, embalado pelo lançamento de um disco inédito e uma nova empreitada publicitária de sua família.

Bob Marley decidiu visitar o país para divulgar o selo Ariola, de sua gravadora, a Island Records – que hoje pertence à Universal Music e tem em seu cast artistas como Justin Bieber, Bon Jovi, Jennifer Lopez e Mariah Carey. Para viajar, o rastaman interrompeu as gravações, na Jamaica, do histórico “Uprising” (Island/Tuff Gong, 1980), seu último álbum lançado em vida. Na época, acompanhado dos músicos Junior Marvin (guitarrista dos Wailers) e Jacob Miller (vocalista do Inner Circle), além de Chris Blackwell, diretor da Island Records, e a esposa dele, a francesa Nathalie Delon (ex-mulher de Alain Delon), Bob Marley aproveitou para lançar a coletânea “Best World Bob Marley” no país. O jornalista João Luiz Albuquerque, repórter e redator das revistas “Manchete” e “Fatos & Fotos”, lembra que o músico tinha finalmente conseguido exportar o reggae do gueto jamaicano para o mundo e fazia sucesso de tabela no Brasil pela gravação de Gilberto Gil para “No Woman No Cry”, que vendeu 500 mil cópias no país. “Era um momento de boom para ele (Bob Marley). E sua vinda ao Brasil deu um charme a mais para a inauguração da Island Records, o que acabou abrindo as portas do país para o reggae, certamente tornando o gênero mais popular por aqui”, analisa.

influência. O cantor e compositor baiano Moraes Moreira, em sua fase pós-Novos Baianos, foi um dos mais influenciados por aquela passagem de Bob Marley. No dia 19 de março de 1980, ele e Marina Lima realizaram um show para apresentar a música brasileira ao rei do reggae, no Morro da Urca, com presença de mil pessoas. “Eu já usava trancinhas no meu cabelo e me sentia da mesma tribo, irmãos mesmo, já que somos todos filhos da nossa mãe África. Os shows foram super legais. Marina e eu mostramos um pouco do Brasil para ele, que, com aquela placidez, observava tudo. Pra mim, particularmente, o reggae bateu forte. Comecei imediatamente a compor um reggae atrás do outro, vendo, então, uma forte ligação entre o reggae e o xote”, diz Moreira.

Um dos maiores mitos em torno da visita de Bob Marley ao país era a de que o rastaman havia apenas tomado suco de frutas no Brasil, por estranhar a culinária local. O craque Paulo Cézar Caju desmente essa história, ao contar que levou Bob Marley para comer sushi às 3h, no Bar da Luiza, reduto boêmio no Leblon, um dia após sua chegada em terras brasileiras. “Nos tornamos amigos quando a Glória Maria (repórter da TV Globo) cantou a pedra de que ele queria me conhecer. Levei ele a vários lugares. Num deles, fui atender a um pedido do próprio Bob, que loucamente tinha perguntado se tinha peixe cru no Brasil. No dia seguinte, ele quis comer todas as frutas brasileiras por curiosidade. Tanto que fui à casa da minha mãe, busquei uma leiteira e ele tomou um suco com mais de 15 frutas”, conta o ex-atleta.

Apesar disso, o maior rolê de Bob Marley no Brasil aconteceu no km 18 da avenida Sernambetiba, no Recreio dos Bandeirantes, onde Chico Buarque mantém até hoje três campos de futebol para as peladas do Politheama, seu time. A turma que Marley encontrou para uma pelada histórica tinha, além do próprio Chico, Toquinho, Alceu Valença, Moraes Moreira, Chicão (músico da banda de Jorge Ben Jor) e funcionários da gravadora Ariola. Foi lá que Moreira aproveitou seu inglês falho para se comunicar com Marley de outra forma. “A nossa comunicação se dava através dos olhares, pois meu inglês praticamente não existia. Já devidamente uniformizados, eu e ele, como se tivéssemos combinado, nos afastamos um pouco da galera. Num das laterais do campo, acendemos ‘unzinho’– melhor dizendo, ‘unzão’. Imaginem agora vocês a onda que bateu”, revela o baiano.

Quem também apareceu no sítio de Chico foi Evandro Mesquita, da Blitz. Ele e o amigo Paulo Suprimento enfrentaram uma epopeia de Kombi, indo de Ipanema até o Recreio dos Bandeirantes para ver Bob Marley, já no fim da pelada. “O juiz apitou o final, acabando de vez com a minha esperança (de jogar). O Bob abraçou o Paulo, que apontou para mim. Ele estava com a bola, eu pedi, ele rolou pra mim, eu levantei, fiz uma firula e devolvi pra ele, que gritou: ‘Yeah, man!’, e me abraçou sorrindo com todos os dentes de Marley pra fora”, relembra o cantor.

Neste mesmo dia, o músico e outros artistas notaram que Bob Marley tinha sentido uma fadiga no dedão do pé esquerdo, que mais tarde evoluiria para uma necrose – chegando a ser difundida como suposta causa de sua morte. “Infelizmente, um ano depois do início da nossa amizade, ele morreu. Mas não teve nada a ver com o machucado no pé. Foi um tumor no cérebro que levou essa lenda da Terra”, completa Paulo Cézar Caju.

Um Comentario

  1. bob marley sempre será o rei do reggae

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